Lula transformou a caça a um megadevedor em peça de geopolítica criminal: pediu diretamente a Donald Trump que ajude a trazer de volta ao Brasil o empresário Ricardo Magro, hoje em Miami e na lista vermelha da Interpol. O movimento expõe uma rara convergência entre discurso duro contra o crime organizado e guerra política doméstica.

De um lado, a oposição explora o ineditismo de um presidente brasileiro apelar ao ex-presidente americano para prender um alvo da PF. A Gazeta do Povo sublinha que Lula pediu ajuda a Trump para prender Magro, “dono da refinaria fluminense Refit” e “maior devedor contumaz do país” com R$ 26 bilhões em dívidas fiscais, hoje foragido e com difusão vermelha da Interpol. O tom destaca o constrangimento diplomático e o uso político do episódio em meio à Operação Sem Refino, que mira também o ex-governador Cláudio Castro.

No campo governista, o mesmo fato vira vitrine de colaboração internacional. A Revista Fórum enfatiza que Lula levou a Trump uma proposta escrita pedindo a extradição de brasileiros envolvidos em lavagem de dinheiro e crime organizado, citando nominalmente o “megasonegador” Ricardo Magro, incluído na Difusão Vermelha da Interpol para facilitar prisão e extradição. O Planalto vende o gesto como parte do programa “Brasil contra o Crime Organizado” e de uma agenda de asfixia financeira de quadrilhas, evitando, porém, rotular facções brasileiras como terroristas.

Já a cobertura econômica busca enquadrar o caso como sintoma de um problema estrutural. O UOL lembra que o Grupo Refit, de Magro, é acusado de um “sofisticado esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro” e que Lula vem reforçando, em viagens, o pedido aos EUA: “mandamos para o presidente Trump a fotografia da casa dele, o nome dele, e nós queremos essa pessoa no Brasil”. Aqui, o foco não é o teatro político, mas o fato de o “maior devedor contumaz do Brasil” ter transformado inadimplência planejada em modelo de negócios.

No balanço, oposição e governo concordam em algo raro: Ricardo Magro virou caso de Estado. Divergem apenas sobre o protagonista da história — se é o fugitivo bilionário ou o presidente que decidiu colocá-lo na mesa da Casa Branca.