Donald Trump foi a Pequim vender ao mundo a imagem de “acordos fantásticos” e amizade pessoal com Xi Jinping, mas saiu de lá com um pacote de anúncios nebuloso e um alerta duro sobre Taiwan pairando sobre a foto oficial.

De um lado, a versão cor-de-rosa. Veículos alinhados ao governo ressaltam que Trump deixou a China dizendo ter fechado “acordos comerciais fantásticos, ótimos para os dois países” e comemorando “resultados muito bons” após dois dias de reuniões. A diplomacia chinesa ecoa o tom triunfal, falando em “visita histórica” e numa nova fase de “estabilidade estratégica construtiva” como eixo da relação sino-americana. Editorial pró-Pequim detalha as “quatro estabilidades” propostas por Xi — positiva, saudável, constante e duradoura — como roteiro para uma rivalidade controlada, sem confronto direto.

Mas basta mudar de lente para a narrativa desinflar. A Folha nota que Trump voltou para Washington “com menos negócios do que o esperado”, inclusive com uma compra de aeronaves Boeing bem aquém do que era ventilado. A pompa da recepção — desfile militar, Templo do Céu, crianças com bandeirinhas e até passeio por Zhongnanhai, a “Casa Branca chinesa” onde poucos líderes são recebidos — contrasta com a ausência de detalhes concretos sobre os tais acordos.

Enquanto Trump vende para sua base que Xi reconheceu que os EUA só foram “nação em declínio” sob Biden, não sob seu comando, Xi aproveita o palco para traçar linhas vermelhas. Em tom gelado, adverte que uma má gestão da questão de Taiwan pode empurrar China e EUA para “choque ou até conflito”, ponto ecoado por análises que falam em “alerta assustador” e em Armadilha de Tucídides rondando a cúpula.

Em comum, governo e oposição admitem: falaram em cooperação, comércio, tecnologia, Irã e reabertura do Estreito de Ormuz. A divergência está no veredito. Para os alinhados, “Xi e Trump discutem nova fase entre China e EUA”. Para os críticos, foi sobretudo um grande espetáculo diplomático em que Pequim entregou símbolos, cobrou respeito em Taiwan — e deixou Trump voltar para casa com mais narrativa do que resultado.

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