São Paulo trocou de técnico de novo, mas a crise não saiu do banco de reservas. A queda de Roger Machado após o 3 a 1 para o Juventude é menos um choque e mais o sintoma de um clube que tenta apagar incêndio com gasolina.
Versão oficial: resultado manda, treinador cai
Nos veículos mais alinhados ao discurso da diretoria, a narrativa é simples: a eliminação precoce na Copa do Brasil amplia uma crise que já vinha do campo para os bastidores. A derrota em Caxias do Sul, com gol sofrido aos 49 do segundo tempo, “custou o emprego” de Roger e aumentou a pressão sobre um São Paulo já afogado em problemas financeiros e administrativos.
A demissão é tratada como decisão “natural” diante da pressão externa e do peso simbólico da queda: Rui Costa fala em “resultado que todos não cogitavam” e na necessidade de trocar para aliviar o ambiente. O dado frio ajuda a tese: 17 jogos, sete vitórias, quatro empates, seis derrotas; 49% de aproveitamento, mas eliminação em mata-mata e sequência sem vencer no Brasileiro.
Versão do mercado: Dorival como antídoto emocional
Na lógica de mercado, a saída de Roger é apenas o prólogo do verdadeiro enredo: a volta de Dorival Júnior. Colunistas apontam que “apenas um nome é unanimidade na diretoria” após a queda: Dorival, visto como o único capaz de mudar rapidamente o humor do elenco e da torcida. Textos destacam seus “trunfos”: capacidade de reorganizar o ambiente, boa relação com lideranças e o peso emocional do título da Copa do Brasil de 2023, que encerrou jejum histórico.
O problema é o contracheque. O próprio presidente Harry Massis Júnior classificou como “loucura” os R$ 2,8 a 3 milhões mensais pagos ao treinador e à comissão no Corinthians, valor até três vezes maior que o de Roger. A diretoria promete “esticar a corda”, mas sem romper o já frágil equilíbrio financeiro.
Versão crítica: crise estrutural e bode expiatório
Em análises mais ácidas, o tiro vai além da área técnica. Há quem veja o São Paulo “se afundando em crise também dentro de campo”, como extensão de uma guerra política que opõe presidência e Conselho, com aliados rompendo e bastidores em ebulição. A demissão de Hernán Crespo, então vice-líder do Brasileiro, é tratada como o início de um efeito dominó em que Roger herda um clube em chamas, não as chamas de Roger.
Colunas acusam os executivos Rui Costa e Rafinha de uma “desastrosa tomada de decisão” na troca de Crespo por Roger, somada a escolhas táticas pobres e insistência em esquemas que expõem o time, como o 4-2-4 com “pontinhas burros”. No 3 a 1 em Caxias, a combinação de três zagueiros, goleiro “pregado no chão” e três gols de cabeça sofridos é usada como metáfora de um projeto que não se sustenta.
A leitura mais dura fala em fundo do poço: time em declínio no Brasileiro, empates na Sul-Americana, guerra aberta entre conselheiros e “futuro tenebroso”.
Versão de contexto: o peso de Roger e o recorte racial
Outra linha de análise recusa a simplificação “culpa do treinador”. Há quem lembre que, no jogo de ida, o São Paulo “perdeu um caminhão de oportunidades” e até pênalti com Calleri, quando poderia ter matado o confronto. Em Caxias, a expulsão de Ferreirinha com 30 segundos em campo – “injustificável” – e a falta de opções no banco ajudaram a empurrar o time para o abismo.
Essa visão também aponta o recorte racial: num futebol com 60–70% de atletas negros, mas apenas dois treinadores negros na Série A (e anos sem nenhum), as críticas a Roger “nunca foram proporcionais”. Ele não criou a instabilidade política, financeira e até médica do clube; foi lançado num cenário “nada usual” para manter um time que não montou, em meio a uma crise que não começou com ele – e, como sempre, é o primeiro a “rodar”.
Em comum: todos apontam para cima
Se há algo que une todas as versões, é o diagnóstico de que o problema não termina no vestiário. Entre quem defende a troca, quem sonha com Dorival, quem acusa a cúpula e quem denuncia injustiças estruturais, o alvo real é o mesmo: um São Paulo que queima técnicos em sequência enquanto a bola insiste em denunciar um clube sem rumo.