São Paulo perdeu mais do que um jogo em Caxias do Sul: perdeu técnico, paciência e, para muitos, a ilusão de que o problema se resolvia trocando só o homem do banco.
A versão oficial: pressão, resultado e “momento de trocar”
Na narrativa da diretoria, a eliminação para o Juventude por 3 a 1, após vitória por 1 a 0 na ida, tornou a continuidade de Roger Machado inviável. O executivo Rui Costa repete o mantra de mercado: o futebol é “muito dinâmico” e o resultado “não era cogitado pela grandeza do São Paulo”, justificando que a pressão externa ficaria insuportável se o técnico ficasse. Os números ajudam a contar essa meia verdade: 17 jogos, sete vitórias, quatro empates, seis derrotas, mas time no G-4 do Brasileiro e líder do grupo na Sul-Americana.
A crônica da crise: bola, expulsão bizarra e elenco no limite
Do lado de quem olha o campo, o roteiro é de autossabotagem. O Juventude virou o confronto com três gols no segundo tempo, aproveitando a expulsão relâmpago de Ferreira — 24 segundos em campo e braço na nuca de Rodrigo Sam. Antes disso, no jogo de ida, o São Paulo “perdeu um caminhão de oportunidades” e até pênalti com Calleri, desperdiçando a chance de matar a classificação. A leitura é de um elenco curto, mal estruturado e emocionalmente frágil, que sucumbe em sequência de cinco jogos sem vitória e atuações apáticas.
Quem cai em campo e quem cai na conta
Nas colunas de opinião, o alvo se divide. Para gente como Milton Neves, a “passagem de Roger” terminou como previsto: sem prestígio com a torcida, sem conexão com o ambiente, eliminado e demitido — e a solução tem nome e sobrenome, Dorival Júnior. Outro olhar, porém, aponta mais fundo: Roger não criou a instabilidade política, financeira e médica do clube, apenas herdou um cenário “aterrador” e um time que não montou. E, num futebol em que 60–70% dos jogadores são negros, mas quase não há técnicos negros na elite, ele paga a conta de uma estrutura que é “mais injusta com uns do que com outros”.
O próximo capítulo: Dorival como panaceia?
Enquanto Roger vira o terceiro técnico de 2026 a rodar, a cúpula já trata Dorival Júnior como unanimidade, mesmo com o entrave de um salário que beira “loucura” para os cofres do clube. Entre quem acompanha o dia a dia, a aposta é quase óbvia: Dorival, conhecedor do vestiário tricolor, é visto como o único capaz de “mudar rapidamente o humor do elenco e acalmar a torcida”.
O contraste é claro: diretoria vende a demissão como gesto de gestão; analistas veem mais um capítulo de um clube que troca técnicos em série para não encarar a crise estrutural. No meio, Roger Machado se torna símbolo de um problema que é bem maior do que ele.