Ciro Nogueira voltou a colocar a chamada “emenda Master” em circulação no Senado, e o movimento escancarou a disputa de narrativas: proteção ao correntista ou blindagem política em meio a uma investigação da PF?
O que está em jogo
O projeto reapresentado eleva o teto de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por investidor, com revisão obrigatória pelo CMN a cada quatro anos. Nogueira alega que o limite atual está congelado desde 2013 e que a inflação acima de 100% tornaria “necessário o ajuste da cobertura”.
A versão de Ciro: inflação, correntistas e “grandes bancos”
Na narrativa do senador, a história é simples: atualizar um valor defasado e aproximar o Brasil de padrões internacionais. Ele tenta se descolar do escândalo do Banco Master, liquidado pelo BC em 2025, e joga a pressão sobre o sistema financeiro tradicional: “eu quero ver qual a desculpa que os grandes bancos vão usar pra negar esta proteção aos correntistas brasileiros”.
Ciro também desloca o foco para o Banco Central: o problema seria a fiscalização, não o FGC, e a responsabilidade recairia sobre quem indica o presidente da autarquia. Ao mesmo tempo, nega “ter entregue íntegra de texto redigido pela assessoria do próprio banco” e afirma: “Nunca recebi nenhum valor ilícito”.
A visão crítica: PF, Master e risco sistêmico
Do outro lado, investigações da PF apontam que a versão original da emenda foi “elaborada pela própria assessoria do Master” e “reproduzida de forma integral” por Ciro, com o banqueiro Daniel Vorcaro comemorando que o texto “saiu exatamente como mandei”. Interlocutores do banco teriam descrito o efeito da proposta como algo que “sextuplicaria” o negócio do Master e provocaria uma “hecatombe” no mercado.
Veículos alinhados à oposição interpretam a reapresentação como manobra para “se descolar de Vorcaro, de quem teria recebido propina”, em meio à Operação Compliance Zero. Especialistas ouvidos por críticos à medida alertam que elevar o limite poderia incentivar estratégias de risco e afetar a própria saúde do FGC.
No papel, é um debate técnico sobre seguro de depósito. Na prática, virou teste de estresse político: até onde a bandeira da “proteção ao correntista” cobre o rombo de um escândalo bancário?