Kassio Nunes Marques assumiu a presidência do TSE prometendo eleições “limpas e transparentes” sob a guarda de urnas eletrônicas confiáveis e de olho na inteligência artificial. Ao redor dele, porém, o plenário virou palco de gestos calculados, abraços improváveis e silêncios eloquentes.

De um lado, a narrativa institucional. Para veículos alinhados ao governo, Kassio chega como defensor da urna eletrônica justamente “em movimento que contraria bolsonaristas” que passaram anos atacando o sistema de votação. Sua meta é reforçar transparência, cibersegurança e combater o uso indevido de IA nas campanhas, inclusive com regras específicas para deepfakes. Em tom solene, ele descreve o sistema eletrônico de votação como “patrimônio institucional da nossa democracia” e exalta que é “o mais avançado do mundo”. CartaCapital ecoa o discurso: democracia como “sistema de autocorreção contínua”, alerta para “o perigo potencial do uso desordenado das ferramentas de inteligência artificial” e prioridade no combate à desinformação.

Do outro lado, a lupa oposicionista destaca o passado e a cena dos bastidores. A Folha lembra que o novo presidente do TSE votou para manter Bolsonaro elegível e divergiu da maioria em casos como os acampamentos golpistas e o 8 de janeiro, cobrando agora que ele prove independência. Josias de Souza fala em chance de Nunes se livrar da “pecha de toga-gorjeta” e deixar de ser “10%” de Bolsonaro, como o próprio ex-presidente o definiu.

Enquanto isso, o plenário fervia em linguagem corporal. Alcolumbre se recusou a aplaudir o AGU Jorge Messias em meio a 30 segundos de aplausos, Lula ignorou o presidente do Senado sentado ao lado, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro protagonizou um abraço – e até beijo protocolar – em Alexandre de Moraes, “carrasco” de Bolsonaro aos olhos de sua base, dividindo bolsonaristas entre defesa e repúdio.

No cenário, uma superposse para 1,5 mil convidados e jantar para 800, planejados para exibir o “prestígio político e institucional” de uma gestão que promete um TSE mais discreto em plena antessala de 2026. Entre discursos sobre IA e democracia, quem roubou a cena foram os microgestos que revelam a fratura exposta da política brasileira.

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