A nova alta de 18% no querosene de aviação expõe um país tentando, ao mesmo tempo, segurar o preço das passagens e blindar a Petrobras de um choque externo que não dá trégua.
De um lado, a narrativa alinhada ao governo tenta enquadrar o reajuste como efeito colateral inevitável da geopolítica. A Petrobras vincula o aumento de R$ 1 por litro à disparada do barril em meio à guerra no Irã, que mantém o petróleo em trajetória de alta desde fevereiro. Para suavizar o impacto, a estatal repete a estratégia do mês passado: permite que distribuidoras parcelem parte da diferença em seis vezes, com início do pagamento só em julho, alegando que a medida "preserva a demanda" e reduz o choque sobre o setor aéreo. Nessa versão, o foco é mostrar gestão responsável num mercado aberto e competitivo, em que a Petrobras det ém cerca de 85% da produção de QAV, mas sem monopólio formal.
Do outro lado, veículos de oposição destacam o acúmulo: é o terceiro aumento do ano, após um reajuste de quase 55% no mês anterior, e num momento em que o barril atinge o maior valor em quatro anos. A ênfase está no bolso: o QAV, atrelado à cotação do petróleo e do dólar, já representa quase metade dos custos das companhias aéreas, pressionando diretamente o preço das passagens. A resposta de Brasília entra na moldura como “socorro”: uma Medida Provisória abre duas linhas de crédito que podem chegar a R$ 2,5 bilhões por empresa, além de zerar PIS/Cofins sobre o combustível, gerando economia de R$ 0,07 por litro.
Semelhanças e diferenças
Os dois campos concordam em algo incômodo: o choque internacional é real e a conta chega rápido ao consumidor. Divergem, porém, no enquadramento político. Para os alinhados ao governo, o pacote de parcelamento e incentivos fiscais prova que o Planalto age para evitar um colapso aéreo. Já a oposição vê na sequência de aumentos um símbolo de vulnerabilidade econômica — e um risco de transformar cada voo em luxo de poucos.