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Polícia Civil faz nova perícia no local de acidente com serralheiro
Morte no palco da Shakira: Polícia Civil fará nova perícia no local de acidente com serralheiro
há 16 dias
Um megashow gratuito pensado para celebrar Copacabana como “altar do planeta” ganha um ponto cego brutal: a morte de um jovem trabalhador embaixo da mesma estrutura que deveria sustentar o espetáculo. Entre marketing, comoção e disputa de narrativa, o palco da Shakira virou também cena de crime.
Na noite de domingo (26), a poucos dias do megashow gratuito na Praia de Copacabana, a agenda midiática estava tomada por Shakira. Em entrevista ao Fantástico, a cantora colombiana falou em português, contou que aprendeu o idioma antes do inglês e reafirmou seu vínculo antigo com o Brasil: “O Brasil foi um dos primeiros países que me recebeu, que recebeu a minha música e que também me inspirou”.
A conversa tinha tom de celebração. Shakira detalhou sua relação com o público brasileiro desde os anos 1990, quando percorreu o país em turnês que passaram de grandes capitais a cidades do interior, e lembrou sua participação em programas de auditório como Domingão do Faustão e Domingo Legal. No auge desse clima nostálgico, cravou a frase que viraria manchete: “Se o planeta Terra tivesse um altar, seria a praia de Copacabana”.
Ao mesmo tempo, a máquina de divulgação do show trabalhava a pleno vapor. Nas redes, Shakira prometia um evento gigante no sábado (2): “Quase lá, Rio!!! Preparando muitas surpresas para vocês: artistas convidados, figurino novo, músicas que vocês vão adorar ouvir… Mal posso esperar para estar lá… no altar do planeta!!”. Segundo os organizadores, a estrutura do palco foi ampliada para cerca de 1,5 mil m², acima do previsto inicialmente, superando montagens anteriores em Copacabana.
Poucas horas depois desse aquecimento festivo, a realidade no canteiro de obras do show foi outra.
Na tarde de domingo (26), um grave acidente atingiu a equipe responsável pela montagem da estrutura do show. Um trabalhador envolvido na instalação do palco na Praia de Copacabana teve as pernas esmagadas por um sistema de elevação usado na construção da base cenográfica, segundo relatos de colegas presentes.
Antes da chegada do socorro oficial, outros funcionários conseguiram retirar a vítima do equipamento. Em seguida, militares do 3º Grupamento Marítimo (GMAR-Copacabana) prestaram os primeiros atendimentos e o homem foi levado ao Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon. Ele não resistiu aos ferimentos.
A primeira cobertura noticiosa, vinda de um veículo alinhado à oposição ao governo, descreveu o caso em tom de urgência: “Um acidente ocorrido na tarde deste domingo (26) resultou na morte de um trabalhador envolvido na montagem da estrutura para o show da cantora Shakira”. Àquele momento, nem o nome da vítima havia sido divulgado. O caso foi registrado na 12ª Delegacia de Polícia, em Copacabana, e peritos foram ao local para apurar as circunstâncias do acidente.
Nas horas seguintes, uma nova leva de informações começou a reposicionar o episódio: o trabalhador foi identificado como o serralheiro Gabriel de Jesus Firmino, de 28 anos, morador de Magé, na Baixada Fluminense, funcionário da empresa MG Coutinho Serviços Cenográficos.
De acordo com o boletim de ocorrência, Gabriel “foi prensado entre dois elevadores” usados na estrutura do palco enquanto trabalhava na montagem de quatro equipamentos do tipo. Um delegado ouvido pela imprensa explicou a dinâmica inicial avaliada pelos investigadores: “A princípio, o que a gente entendeu é que ele estava soldando uma peça. Um elevador estava baixo, e o outro alto, e ele teria dado um comando para o outro operador baixar o equipamento e acabou que ficou [im]prensado ali entre os dois equipamentos”.
Na manhã de segunda-feira (27), a Polícia Civil do Rio retornou à praia para uma nova perícia no local do acidente. Por causa da análise técnica, a organização do evento suspendeu temporariamente a instalação da estrutura. A produtora Bonus Track, porém, informou que a paralisação não impactaria o cronograma e que o palco seguia dentro do prazo previsto.
A investigação está sob responsabilidade da 12ª DP (Copacabana), que inicialmente trata o caso como lesão corporal culposa provocada por acidente de trabalho. Mas o rumo jurídico ainda está em aberto: a Polícia verifica se houve falha da empresa na segurança dos trabalhadores e avalia duas possibilidades principais – homicídio culposo, se forem comprovadas negligência, imprudência ou imperícia, ou homicídio doloso, na modalidade de dolo eventual, caso se conclua que alguém assumiu o risco de provocar a morte. Se nenhum crime for identificado, a ocorrência será tratada como acidente de trabalho, sem responsabilização criminal. Laudos mais detalhados do ICCE devem sair em até 30 dias.
Nos veículos alinhados ao governo e à organização do evento, o fio condutor é o espetáculo. A morte de Gabriel aparece como um dado trágico, mas lateral, na narrativa centrada no impacto cultural e turístico do show.
Nesse enquadramento, Shakira é apresentada como uma artista que fala português por gratidão ao público do país – “Eu aprendi português primeiro que muito inglês. Por quê? Porque eu recebi tanto carinho, tanto amor do público brasileiro que eu queria me aproximar e retribuir um pouco desse carinho” – e que enxerga Copacabana como símbolo global: “Se o planeta Terra tivesse um altar, seria a praia de Copacabana”.
A ênfase está na grandiosidade: megashow gratuito, aumento de área do palco para 1,5 mil m², surpresas prometidas, parcerias com artistas brasileiros como Anitta na música “Choka Choka”, e a narrativa da “fronteira que não existe” entre Brasil e Colômbia – “Colômbia e o Brasil têm muita similaridade. Somos intensos, somos apaixonados [...] Existe uma fronteira, mas no meu coração não tem fronteira com o Brasil”.
Nesse eixo, o acidente é mencionado de forma sucinta, quase como um apêndice inevitável das notícias sobre o show: “Infelizmente, um trabalhador morreu durante a montagem do palco”. A prioridade editorial é preservar o brilho do evento e a agenda de projeção internacional da cidade.
Do outro lado do tabuleiro, veículos de oposição ocupam o vácuo de debate sobre segurança do trabalho e responsabilidade. A manchete é direta: “URGENTE: Trabalhador morre durante montagem do show de Shakira em Copacabana”.
Aqui, o foco não é o glamour do “altar do planeta”, mas a violência do acidente em si: o trabalhador teve “as pernas esmagadas por um sistema de elevação”, foi socorrido por colegas, atendido pelo GMAR e levado ao hospital, onde morreu. A narrativa destaca a rápida abertura de inquérito e a presença de peritos no local “com o objetivo de esclarecer as circunstâncias do acidente e identificar eventuais responsabilidades”.
Ao enfatizar a sequência técnica – acionamento da Polícia Militar, registro na 12ª DP, perícia imediata – essa cobertura abre espaço para questionar se a pressa na montagem e a ampliação da estrutura teriam pressionado condições de trabalho e segurança. Mesmo sem afirmar isso explicitamente, o subtexto confronta o discurso oficial de normalidade.
Nas narrativas governistas e de oposição, há um raro consenso: o fato de que um jovem trabalhador de 28 anos, Gabriel de Jesus Firmino, morreu prensado entre elevadores enquanto montava o palco de um show gratuito destinado a centenas de milhares de pessoas.
A divergência está em como esse fato é hierarquizado.
Na cobertura oficialista, a morte entra no rodapé de matérias que exalam entusiasmo, com trechos inteiros dedicados à carreira de Shakira no Brasil, à estética do show e ao turismo, reservando à tragédia apenas uma frase de transição. Já na cobertura oposicionista, o show é quase um cenário de fundo – o centro é o acidente, o equipamento que esmaga, a corrida ao hospital, a investigação em curso.
A reportagem de viés mais institucional, acompanhando a nova perícia da Polícia Civil, acaba funcionando como ponto de equilíbrio entre os dois extremos. Detalha quem era Gabriel, qual empresa o contratou, como teria ocorrido o esmagamento entre dois elevadores, quais hipóteses penais estão sobre a mesa (de homicídio culposo a dolo eventual) e como a perícia pode, em 30 dias, transformar um “acidente de trabalho” em caso criminal – ou enterrá-lo como fatalidade sem culpados.
O episódio expõe uma contradição recorrente em grandes eventos brasileiros: a mesma estrutura que rende fotos aéreas deslumbrantes e discursos sobre projeção internacional frequentemente se ergue sobre trabalhadores pouco vistos, com segurança nem sempre à altura da grandiosidade do projeto.
Enquanto o mundo presta atenção à performance de Shakira em português e à vista de Copacabana, a história de Gabriel – serralheiro, 28 anos, prensado entre dois elevadores – corre o risco de se tornar apenas mais uma nota de rodapé em meio a drones, luzes e fogos.
A investigação da 12ª DP dirá se o que aconteceu foi erro, negligência, cultura de risco ou apenas o acaso na engrenagem do espetáculo. Mas, independentemente do enquadramento jurídico, uma pergunta já está posta, e é comum a qualquer lado do debate: qual é o preço aceitável para erguer o próximo “altar do planeta”?