O áudio Flávio–Vorcaro: o que ele muda (e o que não muda) na eleição de 2026
Minha atividade de décadas no mercado financeiro me ensinou a separar análise de torcida. Quando você está comprado num ativo, há uma ligação emocional com ele, e fica mais difícil avaliar o cenário, especialmente quando surgem evidências que contrariam os motivos que levaram você a comprá-lo.
O mesmo pode ser dito sobre estar vendido numa ação. A tendência é passar um filtro na realidade para sobrevalorizar tudo que é negativo sobre aquela empresa, deixando de avaliar os aspectos positivos.
Usualmente, quando você não está nem comprado, nem vendido, é mais fácil fazer uma análise coerente.
O problema é que o ser humano, por natureza, dificilmente pode ser considerado isento emocionalmente em relação a qualquer assunto, especialmente na política. Pesquisadores já mostraram que as discussões políticas não acionam áreas do cérebro que controlam a razão, mas sim a emoção.
Nesse episódio do áudio de Flávio em conversa com Vorcaro, negociando recursos para um filme sobre seu pai, o mesmo padrão se apresenta: há uma tendência natural aos "comprados" na sua candidatura a diminuir a importância do episódio, enquanto os "vendidos" vão sobrevalorizar.
Dito isso, o que podemos dizer sobre o episódio do áudio é que ele, por si só, não inviabiliza a campanha de Flávio, apesar de enfraquecê-la.
Apesar de uma demonstração completa de imprudência em insistir na busca de recursos quando já estava claro para todo mundo o tamanho do buraco do Master, não há nenhuma ilegalidade em buscar recursos para um filme com um banqueiro. A coisa muda de figura se houver indícios de desvio desses recursos, ou de compra de favores, o que no caso de Flávio é menos provável, visto que ele está na oposição e sua família é perseguida pelo regime.
Alguém pode alegar que Vorcaro estaria fazendo um hedge, ou seja, garantindo influência no caso de mudança de governo, mas isso, por si só, não carrega ilegalidade.
É muito diferente, por exemplo, de contratar a esposa de um ministro do Supremo, que tem o poder da caneta na mão, e pagar mais de R$ 100 milhões por serviços que nem de longe justificam esse valor. Ou quando um ministro, sócio de empresa familiar que recebeu milhões de reais de um fundo ligado ao próprio Vorcaro, assume a relatoria do caso Master e faz tudo para desacelerar as investigações — tendo deixado a relatoria apenas após as relações com o réu serem expostas pela imprensa e pela Polícia Federal.
Ou ainda, com o caso do senador que recebia mensalmente centenas de milhares de reais para apresentar projeto de lei desenhado pelos próprios advogados do banco — uma emenda que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC, resolvendo, na canetada, o problema central de exposição financeira do Master.
Mas no jogo sujo da propaganda política, essas diferenças se perdem, e a esquerda utilizará todos os meios para colocar a bomba no colo da família Bolsonaro, mesmo que o DNA petista do Master seja evidente, dado que a gênese do modus operandi do banco ocorreu na Bahia e no círculo político do estado, controlado pelo partido. Tanto mais que a lógica da compra de influência empurrou os repasses do Master para os dois núcleos do regime — o eixo PT-Centrão no governo e a togada no Supremo —, e não para a oposição perseguida.
Porém, a preço de hoje, esse esforço é insuficiente para virar voto no momento decisivo. Quem é anti-Lula não deixará de votar em Flávio por conta disso, muito menos os bolsonaristas.
Mas é aqui que mora o problema. Em condições normais, isso bastaria. O eleitor anti-Lula somado ao núcleo bolsonarista é maioria, e o sistema teria que respeitar essa maioria.
O problema, porém, não se decide no eleitor.
Como tenho alertado, o resultado das eleições, num regime de censura e perseguição política, depende menos dos candidatos e dos eleitores, e mais do que o sistema quer. Foi assim em 2022, e será assim neste ano. Numa canetada, qualquer candidato pode ser retirado da corrida, ou até mesmo do cargo, após as eleições...
A diferença é que o sistema em 2026 não se decidiu. Há uma divisão interna clara, demonstrada principalmente pela mudança de postura da imprensa que sempre operou como braço de propaganda do regime, agora obrigada a expor os desdobramentos do escândalo do Master que atingiram o próprio Supremo.
Até mesmo a cobertura do vazamento do áudio de Flávio e Vorcaro na imprensa "oficial", Globo à frente, não teve o caráter militante contra o candidato, como observamos em 2022.
O sistema está dividido entre dois caminhos. De um lado, a aposta na continuidade do conflito político em alta combustão, somada ao desastre econômico com Lula — caminho sustentado pelo núcleo togado do Supremo e por parcela do Centrão.
De outro lado, a possibilidade da diminuição da fervura política e a retomada de um caminho econômico racional, que traga algum crescimento sustentável — caminho que conta com parte significativa do Centrão, que percebe o custo crescente de seguir atrelado a um governo em rota de autodestruição, com o bloco da direita no Congresso, com boa parte do mercado, com governadores fortes do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com setores militares fora do núcleo lulista, e até mesmo com parte da imprensa que começa a recalibrar. A pressão americana e o cenário geopolítico atuam a favor desse segundo bloco.
O sistema esperava a morte do chamado "bolsonarismo" com a prisão de Bolsonaro e do seu círculo íntimo, no show trial do 8 de janeiro. Havia ainda a expectativa de criar uma candidatura da "direita permitida", mas não funcionou. Agora, avalia se o próprio Flávio não pode cumprir esse papel — e, paradoxalmente, a sua proximidade aparente com Vorcaro pode até ajudá-lo nesse sentido. Afinal, um Flávio enfraquecido eleitoralmente, mas viável, é exatamente o tipo de candidato com quem o sistema consegue negociar.
Seguir com um Lula em rota de autodestruição econômica, e alta combustão política, mas com maiores garantias de continuidade da atual dinâmica de poder, ou diminuir a fervura política, arrefecendo a perseguição e dando mais espaço para a direita, afastando risco de colapso econômico? É essa tensão interna que definirá o pleito, e eventuais revelações do caso Master serão usadas mais para justificar a escolha do sistema do que qualquer outro fator.